EM CONJUNTO NO DIA 1 VAMOS CELEBRAR HALLOWEEN | SAMHAIM

Este ano voltamos a poder gozar do feriado no Dia de Todos os Santos, que se comemora a 1 de Novembro, e que leva alguns de nós a rumar aos cemitérios, e as crianças a saírem à rua, e a juntarem-se em pequenos grupos para pedir o “Pão por Deus” de porta em porta. Para alguns autores, o que se festeja nesse dia é na realidade uma tradição milenar, ou seja, um rito pagão que a Igreja Católica transformou numa festa em “honra a todos os santos, conhecidos e desconhecidos”, e que também conhecemos sob o nome de Halloween ou Dia das Bruxas.

 

O Halloween foi levado para os Estados Unidos em 1840, por imigrantes irlandeses. Acredita-se que foi criado no século V (a.C), pelo povo Celta que habitava nos países da Irlanda (maioria), Inglaterra e França. De facto para os Celtas, a noite de 31 de Outubro correspondia ao início do ano, com o começo do Inverno, e era conhecido pelo nome de Samhaim (que significa sem sol).

 

Nessa noite o deus Sol morria e o mundo mergulhava na escuridão; a deusa ía ao mundo das sombras à procura do seu amado; depois de se amarem e, fruto desse amor, a semente de Luz esperava no útero da Mãe para renascer no solstício do inverno seguinte. Os Celtas acreditavam que, à medida que os dias encurtavam, era preciso revitalizar o Sol por meio de vários rituais e sacrifícios. Por isso, este Festival correspondia a uma época de meditação e reflexão, sobre os ciclos da vida e da morte na natureza. E era também uma época propícia para se conectar com a energia dos antepassados, pois segundo essa cultura pagã, nessa noite as cortinas do Outro Mundo abriam-se, e assim podia-se enviar mensagens de amor e harmonia aos defuntos.

 

Semelhantes às sementes enterradas na matriz telúrica, Mircea Eliade crê que os mortos esperavam o seu regresso à vida sob uma nova forma. É por isso que eles se aproximavam dos vivos, atraídos pelo mistério do renascimento, sobretudo nos momentos em que a tensão vital das comunidades atingia o seu máximo, quer dizer, nas festas chamadas da fertilidade, quando as forças da natureza e do grupo humano eram evocadas, desencadeadas e exacerbadas pelos rituais.

 

Outrora, os banquetes tinham lugar perto dos próprios túmulos, para que o defunto pudesse participar do excedente vital desencadeado perto dele. Os Celtas costumavam-se vestir com máscaras assustadoras para afastar os espíritos e as bruxas. Velas, lanternas de abóbora e fogueiras eram acesas para aquecer e iluminar as almas, e guiá-las no seu caminho. Eles queimavam ainda simbolicamente no caldeirão ou nas fogueiras, todas as suas frustrações e ansiedades do ano anterior.

 

A noite era de festa, para afastar a tristeza da morte, e os jogos eróticos eram habituais. Tempo de caos por excelência, tempo singular em que homens e espíritos, entidades benéficas e maléficas, vivos e mortos podiam coexistir. O festim colectivo (o nosso actual Magusto, sendo a castanha um símbolo de eternidade e o ouriço um símbolo erótico) representava justamente esta concepção de energia vital, com todos os excessos que isso implicava.

 

Das energias primevas emergia então um novo tempo: um novo mundo, regenerado e recriado. A perfeição do começo exigia a destruição do velho; a mudança exigia uma imersão cíclica no caos, no limbo primevo, condição purificadora indispensável a um novo começo. Começo gerado a partir do nada, da ruptura! Um novo mundo tornava-se possível apenas através de um regresso às origens, aos primórdios, que o mito consagra e o rito permite.

 

No processo de desenvolvimento humano proposto pela Biodanza também estamos em constante mutação e transformação, em contínua morte e ressurreição. A Biodanza é, por isso, muito mais do que um conjunto de exercícios corporais com músicas, que se pratica em grupo; é também e principalmente uma nova visão da vida. Onde renascer significa abandonar o antigo estado para nascer para uma nova vida, o que irá reforçar a Identidade. Rolando Toro (o criador chileno da Biodanza) gostava de lembrar que “quem não renasce a cada dia começa a morrer”.

 

Nunca é demais salientar que a Biodanza propõe uma cultura para a vida, opondo-se nitidamente aos actuais valores culturais que conduzem à destrutividade e à morte. Sendo o seu paradigma filosófico fundamental o princípio biocêntrico (todo o universo, inclusive os seres humanos, está organizado em função da vida), e os exercícios organizados a partir de um modelo teórico baseado nas ciências da vida (biologia, antropologia, psicologia e sociologia), sua acção visa resgatar a sacralidade da vida. E isso dançaremos no próximo dia 1 de Novembro, em conjunto (Grupo de Integração + Grupo de Aprofundamento.

 

E siga a dança….

No sítio do costume, às 20:00 e até apetecer

 

biodanzanunopinto@gmail.com

www.biodanzanunopinto.pt

 

 

VEM CELEBRAR A VIDA – PRÉ CURSO DE BIODANZA ( Julho e Agosto)

A Dança é celebração… mas o que será esta febre, capaz de se apoderar de qualquer criatura (até as aves dançam) e agitá-las até ao frenesim, senão a manifestação muitas vezes explosiva do instinto da vida, que apenas aspira a rejeitar toda a dualidade do temporal para reencontrar de uma só vez a unidade primeira em que corpos e almas, visível e invisível se encontram e se fundem, fora do tempo, num só êxtase? Como atingir essa libertação com a dança da vida – a Biodanza?

O convite que vos faço para este final de Julho e todo o mês de Agosto, é o de participar numa sequência de 5 Aulas Abertas (que também poderemos chamar de pré-curso), para descobrir e recuperar o sabor e o êxtase de viver uma vida inteira e plena, através da Biodanza, um método vivencial criado pelo chileno Rolando Toro (1924-2010) e que se pratica em grupo, semanalmente, de forma regular. É um processo, pelo facto de ajudar na integração dos pressupostos que a Biodanza incorpora na integração da identidade: expressar-se nos 3 níveis de conexão (eu, eu-tu, eu-nós) e nos 5 potenciais genéticos (vitalidade, sexualidade, criatividade, afectividade e transcendência), de forma a ajudar a responder às principiais questões existenciais (onde viver? com quem viver? o que fazer?) e assim ter recursos para adoptar um estilo de vida mais saudável e gerador de saúde e bem-estar.

Apesar da dança só per si trazer inúmeros benefícios aos seus praticantes, a Biodanza é, especificamente, um meio de desenvolvimento humano, e não um trabalho corporal que vise alcançar uma determinada performance física, ou uma expressão apenas com finalidade lúdica. O propósito da Biodanza vai muito para além disso, porque foi concebida como um modo de promover a expressão dos potenciais saudáveis do ser humano e a alegria de viver, através de encontros em grupo, mediados pela música e pela dança. Uma forma de “ser no mundo” que expressa (segundo o princípio biocêntrico) o movimento de conexão com a vida e a integração do homem ao universo, privilegiando assim movimentos mais espontâneos, porque como escreveu Garaudy “se pudéssemos dizer uma certa coisa, não precisaríamos dançá-la”.

Em todas as vivências os participantes são convidados a expressar-se conforme as suas possibilidades, procurando escutar o seu corpo e criar uma dança própria, induzida pela música; o movimento nasce de dentro para fora, conforme a vontade e o sentir de cada um, embora pautado pelo facilitador. Na vivência, e pela comovente sensação de estar vivo,  o participante conecta-se com sua natureza e com um saber primordial que existe em seu próprio corpo, cujos instintos, o guiam à auto regulação da vida. Nas vivências, a dança promove uma percepção mais integrada de si mesmo, na qual o eu não se coloca como objecto sobre o qual se procura reflectir, mas como sujeito que se compreende em sua verdade vivida. Nelas não há dissociação entre mente e corpo, mas um corpo que, por meio do movimento, bebe na fonte da vida. Trabalha-se assim o corpo e vai-se desenvolvendo uma consciência ampliada de si mesmo e do mundo.

Cabe pois a cada um de nós aproveitar as situações criadas pelo facilitador através das danças de cada uma das Linhas de Vivência (vitalidade, sexualidade, criatividade, afectividade e transcendência) para experienciar o limite de nossa capacidade vivencial, e isso num ambiente protegido, acolhedor e afectivo que é o grupo de Biodanza. Cada uma das linhas de vivência representa um modo de expressão das nossas potencialidades genéticas.

É a partir da potencialidade genética e dos estímulos do ambiente, que o processo evolutivo gerou a sua diferenciação, que fazem da existência uma aventura livre e singular. E o meu convite será o de, cada semana (já a partir desta quinta-feira dia 28 de Julho), vos mostrar em que consiste cada uma dessas linhas, dançando-as, tal como proposto por Rolando Toro.

  • 28 de Julho | VITALIDADE expressa-se pela saúde, ímpeto vital (motivação para a acção) e pela alegria de viver. Algumas características que nos podem dar uma impressão geral de vitalidade ajudando-nos a reconhecê-la são: a harmonia e vigor dos gestos, o brilho e a intensidade do olhar; a agilidade dos movimentos, a expressão da voz e a facilidade para rir.
  • 4 de Agosto |SEXUALIDADE visa encontrar o caminho do prazer, sendo o prazer sexual uma forma de prazer mais geral de viver. A capacidade de prazer manifesta-se de diferentes maneiras, mas podemos ter os seguintes aspectos: a receptividade ao contacto corporal e à carícia, a ausência de culpabilidade, a capacidade de feedback, a sedução, a expressão do desejo e a sensibilização corporal.
  • 11 de Agosto | CRIATIVIDADE baseia-se no instinto exploratório e nos impulsos de inovação presentes nos organismos vivos, e a Biodanza pretende resgatar nossa criatividade reprimida.
  • 18 de Agosto | A vida é curso, mas também tem os seus desvios e neste teremos um tema surpresa que brevemente anunciaremos 🙂
  • 25 de Agosto | AFECTIVIDADE diz respeito à relação com o outro, mediada por nossas emoções e afectos. Na Biodanza procura-se que a afectividade encontre como forma de expressão privilegiada o amor (diferenciado dirigido a uma só pessoa, e indiferenciado dirigido à humanidade). E é, como expressou Rolando, na “relação com o outro que tenho notícias de mim”.
  • 1 de Setembro | TRANSCENDÊNCIA expressa-se através da nossa capacidade de “ir mais além” e na harmonização com a natureza ou na união com o próximo, a partir de uma sensação de conexão, por meio da qual o homem se percebe como parte de um todo maior.

Tal como diz o ditado “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, por isso o meu convite é para que experimentes este processo, que leva o seu tempo a percorrer, e venhas a estas 5 Aulas Abertas, prenúncio do que desenvolveremos, de forma mais aprofundada no próximo ano do grupo – curso regular que se iniciará em Setembro, neste caminho de construção e integração da identidade, do prazer e do êxtase.

Vem daí vivenciar uma experiência alternativa, baseada em uma cultura do amor e sentimento e no desenvolvimento de relações sociais pautadas na reciprocidade. Como escreveu Maurice Béjart “a palavra divide. A dança é união. União do homem com seu próximo. União do indivíduo com a realidade cósmica”.

Espero por ti às Quintas | 20:00

Na Rua Rodrigues Sampaio, nº 19A (metro avenida) | Lisboa

Para mais informações e inscrições: 962894374 ou através biodanzanunopinto@gmail.com

ESTÁ A CHEGAR A HORA DE SE CUMPRIR PORTUGAL… DANÇANDO

No dia 10 de Junho convido-vos a vivenciar o mito do V Império, tanto em Lisboa como no Porto, num acto simbólico que celebra e reverencia a sacralidade da vida.  O objetivo é, através desta primeira recriação simbólica poderem experimentar um momento mágico, um novo olhar sobre o mundo e si mesmo, saindo do tempo da neurose para entrar no tempo da missão, da esperança e do amor. Como num ritual iniciático (representação ativa do mito) que leva ao confronto com a morte de certas realidades, à permissão de contactar com o novo, e retornar a uma condição primordial. Só então se tem acesso ao conhecimento dos mistérios… do coração e da vida.

Alguns mitos que circulam no imaginário ocidental surgiram como narrativas utilizadas pelos povos gregos para contar a origem do mundo e do homem, explicar factos da realidade e fenómenos da natureza utilizando-se de muitos símbolos, deuses, heróis e personagens sobrenaturais, relacionados com alguma data ou religião. Tudo misturado a factos reais, características humanas e pessoas que realmente existiram, com o objetivo de transmitir o conhecimento e explicar através de rituais em cerimónias, danças, orações e sacrifícios, o que a ciência não havia explicado. Excusado será explicar porque, desde o advento do racionalismo, a mitologia desapareceu da paisagem, particularmente nas sociedades ocidentais, desconectando-nos com a vida divina que há em nós.

Foi o psicólogo Jung (1875-1961) o responsável pela mudança dessa percepção, tendo escrito que “nenhuma ciência irá algum dia substituir o mito, e o mito não pode ser criado por nenhuma ciência”, pois considerava-o uma expressão do inconsciente coletivo universal. Composto de arquétipos -como o herói, a mulher sábia, o velho, etc- presentes em nossa psique primitiva, as suas raízes estão nas experiências vividas repetidamente por incontáveis gerações ao longo da evolução da espécie humana, de modo que acabaram por tornar-se uma porção atávica do nosso psiquismo, padrões herdados mas não conscientes, e universais porque evocam sentimentos, imagens e comportamentos com os quais todos, de uma forma ou outra, nos identificamos. São sentidos como numinosos e expressam-se de forma simbólica.

Também Joseph Campbell (1904-1987) conhecido pelos seus trabalhos sobre a mitologia revelou que a mitologia em si, era um roteiro para a autodescoberta, tendo escrito que “é a canção do universo – música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia. Mitos são aquilo que os seres humanos têm em comum, são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significação através dos tempos”. Apostou mais no simbolismo, significado e imagens do mito. Interessou-se particularmente pela jornada do herói, importante porque transmite verdades universais sobre si mesmo ou seu papel na sociedade.

Para iluminar os aspectos arcaicos da Biodanza, também Rolando Toro utilizou os mitos, nomeadamente de (i) Deméter (sacralização da natureza e busca de estados de expansão de consciência), (ii) Dionísio (alegria de viver,a busca do prazer e do êxtase e a liberação da profunda potencialidade instintiva através da dança), (iii) Orfeu (o poder da música, do canto e da poesia, capaz de induzir processos de transformação no ânimo humano) e ainda o arquétipo de (iv) Cristo (pelo amor ao próximo, humildade e misericórdia).

No caso do V Império o mito fez-se história com D. Afonso Henriques no sonho crístico de Ourique em que ficou incumbido de levar a mensagem de Cristo -a mensagem do monarca universal- dentro de um espírito de fraternidade, sem violência, aos quatro cantos do mundo. Os cavaleiros templários deram corpo a essa missão, embora em segredo. Devido à inquisição a missão templária foi-se cristalizando cada vez mais através de D. Dinis, da Rainha Santa Isabel com o culto do Espirito Santo e, por fim com quase todos os navegadores lusos também eles iniciados (na Ordem de Cristo).

E hoje Portugal, Fernando Pessoa falava de “Falta cumprir-se Portugal”. Será que ainda existe alguma forma de cumprir a missão que falta (a de unir todos os povos pelo Espírito Santo)?

Como refere Eduardo Amarante (2009, 2016) “no inconsciente colectivo do povo português mesclam-se dois sentimentos antagónicos: o de sermos herdeiros ou descendentes de um passado histórico glorioso e o de estarmos atolados desde há séculos num ambiente de mediocridade a vários níveis”. Tão bem ilustrada nos tempos actuais pelas condições impostas pelas organizações internacionais. Essas condições e um espaço geográfico reduzido levaram o gene luso a expandir-se pelos 5 continentes, deixando a sua semente (capacidade inata de integrar e se integrarem no meio que os rodeia de forma pacífica e tolerante) e inventando a “verdadeira globalização” –aquela que tem aspetos positivos-, assente nos valores da fraternidade e agora mais claramente também nos biocêntricos.

É uma recriação, num outro plano, da aventura das Descobertas. É como um sopro sagrado que vem desde o início dos tempos e ficou gravado na nossa alma, forma de ser e tradições e que nos determina como povo, com uma identidade própria, das mais antigas da Europa.

Chegou pois a hora para coletivamente cumprirmos Portugal.

Só falta soar o clarim e que siga a dança!

Nuno Pinto

Vivência de Biodanza: MITO do V IMPÉRIO – 10 Junho – Lisboa e Porto

DANÇAR O MITO DO V IMPÉRIO E A SACRALIDADE DA VIDA

No próximo dia 10 de Junho –Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades- convido-vos a uma vivência especial subordinada ao tema da Biodanza e do Mito do V Império. Nesta celebração pretendo aliar a nossa portugalidade, e aquilo que ela tem de sacralidade da vida, de universal e de nova mensagem de amor e esperança ao mito, reactualizando-os, a partir da ligação aos valores biocêntricos sobre os quais repousa a Biodanza!

A ideia onírica de Quinto Império em Portugal deriva do sebastianismo, que por sua vez é um mito ligado à tradição messiânica que se origina na crença no regresso do rei D. Sebastião (que após o desastre de Alcácer Quibir em 1578 levou ao desaparecimento do Desejado, e à perda de independência). No reinado de D. José surgiram 2 linhas de pensamento sebastianista.

Por um lado, os ortodoxos acreditavam no regresso físico do rei. Enquanto reacção à dominação castelhana, o rei Desejado/Encoberto seria um enviado que libertaria o povo da miséria e da opressão em que vivia. Durante o domínio filipino vários se apresentaram como o desejado ou se fizeram passar por D. Sebastião o que contribuiu para o mito se manter vivo.

Por outro lado, havia ainda aqueles que defendiam já o mito como uma nova era, terrena e/ou espiritual. Esta versão inspirou-se nas trovas de Bandarra, em que este louvava Deus e D. João III. Poemas esses que tinham influência judaica (baseada numa previsão bíblica em que o profeta Daniel interpreta um sonho do Rei Babilónico Nabucodonosor) e nas lendas arturianas e, que apesar de proibidas pela inquisição se perpetuaram. Nesta corrente entram o Padre António Vieira que imaginou um V e novo Império, de cariz universal e eterno que o padre atribui geográficamente a Portugal.

Camões, Pessoa e Agostinho da Silva também apresentaram versões, embora diferentes entre elas, desse mito.

Com Pessoa surge a dúvida ao leitor menos atento se o império é puramente espiritual (cabala), ou se tem materialização geográfica em Portugal enquanto paraíso terrestre (segundo Manuel Gandra em Alenquer, que em tudo se parece com a Jerusalém terrena e celeste). Para Pessoa o V Império será precedido do enviado de D. Sebastião que virá do nevoeiro; no entanto para este, D. Sebastião não é na verdade o rei historicamente conhecido, mas o Encoberto líder do Espírito Santo. Aquilo que o Desejado representa é eterno, tal como cada um de nós; a morte é somente uma mudança de estado e de veículo.

Por se tratar de uma alegoria essencialmente alquímica, ela integra a tradição hermética da morte ritual e do renascimento em outro nível de consciência (o arquétipo da Fénix). Diz a lenda que a fénix é um pássaro que, quando morre, seu corpo entra em combustão espontânea, e depois de algum tempo, de suas cinzas nasce outro pássaro. Com o surgimento do cristianismo a fénix passou a representar a ideia de ressurreição e de vida após a morte, pois esta ave representava Jesus Cristo ou o Iniciado; simbolizava também a esperança que nunca deve morrer no homem; da facto, como a nova fénix acumula todo o conhecimento obtido por suas antecessoras – que na realidade, são a mesma – um novo ciclo de inspiração e esperança (re)começa. Arquetipicamente isso implica sermos capazes de nos atualizar, quebrar paradigmas, mudar de direção, de estratégia, sem perder o foco e a particularidade que carregamos em nós.

Podemos falar de uma nova era em que os homens despertos terão a consciência da sua unidade, da sua interdependência, da necessidade de doar, do mundo superior, de onde provêm e a que aspiram voltar, não um mundo perfeito mas com consciência da imperfeição. Onde os homens combatem e controlam o ego e enfrentam-se ao espelho. Assim estarão despertos, segundo Pessoa, para o arquétipo do Quinto Império.

Agostinho da Silva também visionou um Quinto Império sob a égide do Espirito Santo, inspirado tanto nas teorias de Joaquim de Floris, como no culto do Divino (introduzido em Portugal por volta de 1323 por D. Dinis e a Rainha D. Isabel e que ainda se festeja nos Açores nas Festas do Espírito Santo, e em Tomar com a Festa dos Tabuleiros).

Esta visão caracteriza-se pela construção de uma nova sociedade baseada na inocência de que as crianças são o modelo (“restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos imperador”), na partilha dos bens como na das “sopas do Divino”, e na liberdade que destruísse todas as prisões.

Para Agostinho da Silva, nosso contemporâneo, trata-se de restaurar igualmente uma nova humanidade que seja capaz de viver plenamente “na sua integridade uma inteira vida; não despedaçados na angústia económica e noutras, só farrapos de vida”. O Império de Deus nesta terra, ou seja, o Império do Espírito Santo será o da realização terrena das Bem – Aventuranças, o onde já não haverá caluniadores nem perseguidos, o onde terão vencido os puros de coração e os misericordiosos, pátria prometida dos justos e dos que têm fome de Espírito, pátria prometida da Verdade e do Amor. Onde erigir o arquétipo da Criança Sagrada é primordial, pois nesse império é ela quem nos guiará.

A imagem arquetípica da criança corresponde ao estádio “urobórico” (condição paradisíaca do desenvolvimento da criança). Já Jung afirmava que a criança tanto é divindade como herói, que tem por função fundar um império, qual Ilha dos Amores (Camões).

Assim sendo, teremos novamente a possibilidade de reatualizar o paraíso na terra, actualizando o mito através da Biodanza dançando os arquétipos e… não só. No próximo artigo daremos mais dicas, mas o ideal mesmo, é que venham vivênciar no próximo dia 10 de Junho, em Lisboa (de manhã), no Porto (ao final da tarde). Vem e trás um(a) amigo(a). A vivência é aberta mesmo aos não praticantes regulares.

Mais informações através: biodanzanunopinto@gmail.com