A Vida no centro, ou a minha perspetiva do princípio biocêntrico (para começar…)

A Vida no centro ou a minha perspetiva do princípio biocêntrico (para começar…)

 

Há anos que desejava começar a escrever  (livro encomendado, já tenho, há mais de 10 anos!!!), mas a Vida chamou para outras vidas. Pai de 4 filhos biológicos (Diana 22, Gustavo 13, Madalena 4, Joana 8m) e muitos ecológicos (incontáveis, em 19 anos de facilitação e formação). Isto tem levado a muitos adiamentos desta forma de expressão: a escrita.

 

Dia 14 de Maio de 2019, na minha última consulta com Nuno Michaels,  o chamamento ficou mais forte. Já na primeira consulta me tinha sugerido escrever, e muito. Também o ‘empurrão’ contínuo da minha querida amiga e colega, Ana Maria Silva, e o ‘tropeção’ no ‘Livro em Branco’, oferecido pela minha querida amiga Marta Rebelo, estão a contribuir para, finalmente, dar expressão à escrita.

 

Hoje, na contingência do quotidiano, bebendo um café na esplanada, com a minha Joana no marsúpio, com a Maggie, minha cadelinha, espojada, depois do passeio matinal, sentindo a brisa suave, olhando o mar ao longe, esperando a minha mulher, entro no fluxo, aceito, e escrevo… e é assim que eu gosto. Entregue ao fluxo!

 

Elaborar, refletir, pensar, sentir e escrever sobre o princípio biocêntrico é um desejo e um desafio antigo e vem na sequência dos imensas contribuições, quase autorais, de Rolando Toro Araneda, criador do maravilhoso sistema Biodanza. Este é o desafio de uma Vida, que quero abraçar, aceitando-o e aqui começando a senda…

 

Viver a vida como ela é, conectada, complexa, diversa, adaptada, fluída, evolutiva, temporal, do caos à ordem, rumo a uma ‘certa humanidade’, que ainda está por, ou para chegar. Ou, até já chegou, lá mais à frente no tempo, chamando agora para o presente!

 

Quero falar da vida, viver a vida, sentir a vida, desde a dança da vida, afinal além de ser quem sou, sou pai, filho, marido, amigo, sou muito dançarino. Danço a vida, faço Biodanza! É o meu trabalho, mas, acima de tudo, uma paixão, uma forma de expressão, uma forma de vinculação, que me permite ir além da família (biológica), contribuindo para a família ecológica, para uma outra humanidade…

 

Foi, acima de tudo, com a Biodanza, que tomei contacto com a sacralidade da vida, incorporada, encarnada, de forma extática. Esta sacralidade assenta no princípio biocêntrico, um convite à reverência à vida como centro, como princípio (início) e princípio (orientação) de tudo. Esta forma de civilização que fundámos (lá atrás com o início da sociedade agrícola) rompeu com a Vida, criando princípios de orientação direcionados para a religião, a família, a política, a economia, muitas vezes com valores anti-vida, com os resultados insustentáveis que conhecemos.

Então, primeiro que tudo, deve a Vida nortear, orientar, pautar as nossas escolhas, a nossa conduta, a nossa vida. Como agora, por exemplo, chama-me a Vida: a minha Joana está com fome, chora, imbuída do espírito de Vida nela presente e reclama pelo biberão….

 

Bom, voltando… em tantas culturas que o homem ‘civilizado’ criou, baseadas em projeções religiosas, partidárias, tribais, familiares, económicas, num claro exercício de poder exploratório, poucas assentaram nos valores ancestrais, de respeito e integração com a natureza, com a Vida. Ainda está por cumpri o ser cósmico de que Rolando Toro falava. E o princípio biocêntrico é um caminho essencial. Olhando a Vida, e hoje temos tantos olhares, quantas identidades viventes, ela expressa-se de forma plena, através da diversidade, da complexidade, da conectividade, da adaptabilidade, reciprocidade, ela traduz-se na nossa humanidade, através dos instintos, das sensações, das emoções, dos sentimentos e dos pensamentos. Poderemos considerar estes valores como vitais, como expressão do vivente. Valores como o sacrifício, a dor, a negação, a repressão são ‘invenções’ humanas, geradoras de culturas anti-vida.

 

Espero ter dado o mote, para desenvolver esta elaboração ao longo do tempo (temos muito…), procurando escrutinar este princípio, trazendo-o para as escolhas do dia-a-dia, à procura de cumprir um quotidiano, centrado na Vida, capaz de gerar mais vida, dentro da vida, que é como quem diz, mais alegria, prazer, expressão, vínculo, harmonia, consigo mesmo, com o outro, com o mundo.

 

A Vida como propulsor, através da expressão existencial da Identidade.

 

Fá-lo-ei inspirado por identidades que valorizam a Vida, tais como Rolando Toro, Yuval Harari, António Damásio, Byung-Chul Han, Edward Wilson, Theodore Zeldin, Richard Dawkins, Humberto Maturana, Francisco Varela, Nietzsche, Mircea Eliade, Joseph Campbell, Omraam Mikhael Aivanhov, Heráclito, Freud, Jung, Lacan, Winnecot, Garaudy, Chardin, Heiddeger, Sartre, Merleau Ponty, entre muitos outros…

 

Nuno Pinto,

Ao ritmo da vida…

23 de Maio 2019

 

P.S.: A Vida chama-me outra vez: mudar a fralda à minha Joana